Resenha : BUDAPESTE - Chico Buarque

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Singularidades narrativas de Chico Buarque

 

“Budapeste”: ame-o ou deixe-o. Se optar por amá-lo sentirá no fundo da alma o que deve ter sentido Almeida Garrett em seu belo poema "Este inferno de amar", pois se não amá-lo muito não poderá compreender tanta inversão.

 

 

O romance começa, aparentemente, seguindo os caracteres estruturais da narrativa; temos um narrador em primeira pessoa "Certa manhã, ao deixar o metrô por engano numa estação azul igual à dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase." Nesta última frase podemos ter noção do que virá pela frente: o autor/narrador irá contrariar as famosas leis da estrutura narrativa de Todorov.

Neste momento é como se pegássemos um trem sem saber o seu destino, afinal o próprio protagonista foi parar em Budapeste por acaso, como descobrimos mais a frente na pág. 06 "Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio.". A sensação de estarmos num trem nos acompanhará por um longo e tortuoso caminho, o texto terá paradas bruscas, desvios, mudanças rápidas de paisagem e de personagens, idas e vindas, encontros e despedidas. "Encontros e despedidas", por coincidência, é o título de uma música de Milton Nascimento que trata justamente de fatos relacionados a viagens de trem.

Voltando a Todorov e às leis de funcionamento da narrativa, percebemos várias "falhas"em relação ao percurso narrativo tradicional como: Lei da não-repetição" - em vários trechos do texto há repetições de frases ou de situações, como acontece, por exemplo, na pág. 14 "...vim pela praia devagar, rente à ciclovia, meninas pedalando, meninas de patins, sol de outono..." e que se repete na pág. 26, na pág. 29 há duas repetições do trecho "...quando zarpei de Hamburgo e adentrei na Baía de Guanabara", na pág. 61 "...minha mulher em Londres, as meninas de patins em Ipanema,..."este trecho é repetido duas vezes na mesma página. Uma outra lei, talvez aparentemente negada , é a "Lei da antidigressividade", pois o texto parece desviar de seu rumo a todo instante, há várias histórias se cruzando: a primeira é de José Costa, nosso Ghost Wríter, casado com uma mulher jovem.vaidosa, um pouco fútil, distante; pai de um filho mimado e obeso, quase um estranho para ele.

A história de José Costa mistura-se com as outras, criadas por ele, de tal forma que a todo momento você sente o pulsar dele em tudo o que está sendo narrado, principalmente no trecho em que ele narra a história do alemão na pág. 28 , ele termina o parágrafo com "Meu filho estava obeso."e começa um novo, em terceira pessoa, a história do alemão "O alemão não tinha cabelos, nem sombra de barba...", ou ainda na pág. 38 "De qualquer modo naquele instante(...) nem ouvir as fitas do alemão. Eu era um jovem louro e saudável.". Notem que ele retomou a narrativa do alemão agora em primeira pessoa, neste momento fica clara a presença de Jose Costa. Até a biografia dos outros ele escreve como se fosse sua.

 

 

 

Enfim, a história de José Costa cruza-se com a do alemão e com a dos outros personagens criados por ele numa aparente confusão. Esta confusão é tamanha, percebe-se uma pseudo perda de identidade e ele chega a duvidar se ele também não é criação de alguém, isto pode ser notado na pág. 24 "...a todos o Álvaro lograva impor meu estilo, quase me levando a crer que meu próprio estilo, lá no começo, seria também manipulação dele."

Ao mesmo tempo que esse cruzamento de histórias deixa-nos confusos, também remete-no às fabulosas histórias de Sherazade em "As mil e uma noites", onde uma história puxa outra, ligadas apenas por fio tênue, mas de grande importância para o seguimento das narrativas, um fio condutor. De acordo com a história básica, os dois protagonistas, um homem e uma mulher, se encontram na maior crise de suas vidas: o rei desgostoso da vida e cheio de ódio pelas mulheres; Sherazade temendo por sua vida, mas determinada a conseguir a libertação dele e dela. Ela atinge sua meta através da narrativa de muitos contos de fadas.

Qual seria o fio condutor de Budapeste? Fazer o caminho inverso da narrativa para mostrar as belezas do ato de narrar, de escrever? As peripécias de seu autor seria um dos casos raríssimos em que "se mata a cobra e mostra o pau"? Ou seja, Chico Buarque, com seu romance consegue mostrar os prazeres e as dores do ato de criação de um texto literário?

Uma outra singularidade de "Budapeste" é o seu vocabulário, pois na pág. 08 o narrador deixa escapar quanto as palavras têm valor "...eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia."; isto significa o quanto as palavras são profundas, fundamentais, pois Drummond, também, em seu poema

"Procura da poesia", afirma que a palavra é poderosa: (...) Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intata./ Ei-| los sós e mudo, em estado de dicionário./ Convive com teus poemas, antes de escreve-los./ Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam./ Espera que cada um se realize e consume/com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio."(...). Alguns vocábulos utilizados por Chico Buarque que podem merecer destaque são: "...era perfeitamente glabro",( sem barba) pág.28; "...a babá compartilhava as minhas aflições pela afasia do menino.", ( dificuldade de falar) pág.32;"... o título O Ginógrafo, e as letras saíram...", (o que escreve no corpo das mulheres) pág.41; Prognata, vinha empertigada e dilatando as ventas", (que tem a mandíbula projetada pela frente) pág. 54; "...e a caminho do hotel tive minha primeira e peripatética aula de húngaro,...", ( ensinar passeando) pág.60; "Telefonei sem necessidade, por puro cabotinismo, pois acabara...", ( para chamar atenção) pág. 66; e muitas outras.

Ainda falando em singularidades podemos citar algumas imagens brilhantes e significativas como a criada na pág. 26 no momento em que José Costa chega em casa e descreve a sombra projetada pela veneziana, a impressão que se tem é a de que a casa, para ele, significa uma prisão "O sol da tarde já baixava, vazando as persianas e projetando como uma grade no assoalho e na coberta da cama.", dpois que ele conversa com Vanda, e ela diz estar com sono

e cai inerte na cama ele descreve novamente a mesma cena da sombra da persiana ,pág. 28 , só que agora ele muda para jaula, talvez para traduzir sua atração por Vanda, algo próxima de animal, como para explicar que sua relação com ela fosse apenas carnal, instintiva "E o sol invadia o quarto, e as sombras da persiana estampavam uma jaula na toalha sobre o corpo na cama."

Uma outra imagem, e talvez a mais significativa de todas aparece na pág. 40 "E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas (...) e a minha mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa."; além do início deste trecho fazer alusão ao processo do surgimento do romance: período de gestação, "...livro foi ganhando formas,...", um período de espera do "bebê" nascer "...e foram dias e noite sem pausa, sem comer um sanduíche..." e finalmente o seu nascimento "... até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final...". A frase final a qual ele se refere, aparece três vezes no texto: primeiro na pág. 40, já citada, quando José Costa, finalmente termina a biografia do alemão; a segunda vez na pág.87, quando José Costa, talvez somente em sua imaginação, narra o possível encontro entre o alemão e Vanda, onde Kaspar Krable, após recitar os textos do romance "O Ginógrafo" para Vanda repete a frase "... e a mulher amada...", e a terceira e última vez na pág. 174, página final do livro. José Costa repete a mesma frase, só que agora não mais à Vanda e sim a Kriska.

O número três é encarado na psicanálise como os três aspectos da mente: id, ego e superego. Talvez, neste texto, não seja a tripartição da mente humana que esteja simbolizada, mas o ato de criação de um texto literário, desde seu germinar, que corresponderia ao "id", fase instintiva que pode estar ligada ao seu relacionamento com Vanda; em seguida passando pela processo trabalhoso da elaboração escrita do texto, que seria o "ego" e que pode estar relacionado com seus diversos heterônimos (como Fernando Pessoa) e que corresponderia a fase do princípio da razão, das descobertas e, por fim, ao produto final, o término do livro que seria o "superego", que representa a fase adulta, da consciência, da plenitude. Kriska talvez represente o "superego", pois no final do livro é a ela que são dirigidas as famosas palavras, por três vezes citadas.

Talvez possamos ensaiar uma conclusão e dizer querBudapeste seja um tratado sobre o amor. O amor em suas três fases: atração, acomodação e maturidade, ou a mulher amada seria a língua materna passando por vários processos de criação.

Todas estas pequenas reflexões feitas não têm a ambição de se esgotar ou gerar qualquer polêmica, não passam de alguma citações das singularidades narrativas de Chico Buarque, e que possivelmente serão retomadas e discutidas no futuro.

Mesmo havendo muito ainda a ser dito uma coisa já podemos adiantar sobre Budapeste: Machado de Assis não é o único narrador singular.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Buarque, Chico. Budapeste.
Sâo Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Todorov, Tzevetan.
As estruturas narrativas. São Paulo: Objetiva, 1978.
Fiorin, José Luiz.
Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1989.
As mil e uma noites / (versão de) Antoine Galland;
Tradução Alberto Diniz; apresentação de Malba Tahan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001,

 

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